[ARTIGO] “Hack Town 2016 e os aprendizados de um projeto colaborativo”, por Carlos Henrique Vilela

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Hack Town 2016 e os aprendizados de um projeto colaborativo

Por Carlos Henrique Vilela (*) 

Assim que o Ken Fujioka me convidou a escrever este texto sobre o Hack Town, passei dias pensando no que seria relevante compartilhar com a comunidade de planejamento. Foi um exercício bem legal. Consegui identificar alguns aprendizados em termos de estratégia e refletir bastante sobre eles. Muito do que fizemos foi intencional, muito foi intuitivo. Aliás, o projeto não foi planejado antes de acontecer. Ele foi sendo planejado enquanto acontecia. E mais do que isso, só agora, depois do exercício, é que me caiu a ficha de que o Hack Town pode ser considerado um produto da economia colaborativa.


Primeiro, para quem não conhece o projeto, selecionei alguns links:

Site oficial:
www.hacktown.com.br

Review da Carol e do Franklin no Projeto Pulso:
http://projetopulso.com.br/criatividade-e-tecnologia-com-tempero-mineiro-review-hack-town-2016/

Review do Mateus Iglesias no Unplanned:
http://www.unplanned.com.br/posts/hacktown-2016-sinhas-moreiras

Review do Igor Oliveira no Abacaxi Voador:
https://www.abacaxivoador.com.br/eventos/multitematicos/hack-town-2016-criatividade-e-inovacao-direto-do-sul-de-minas/

Review do Roberto Lima no Unplanned:
http://www.unplanned.com.br/posts/as-5-coisas-mais-legais-que-vi-no-hacktown-2016


Ok. E os aprendizados?

Bem, eles estão longe de ser uma fórmula. São apenas pontos que nos ajudaram a construir uma identidade singular, orgânica, descentralizada e criativa. Tem funcionado pra gente, e tem muito a ver com a bandeira que carregamos em outro projeto que estou envolvido há alguns anos em parceria com o André Foresti, da F/Nazca, que é o Unplanned (www.unplanned.com.br). O Hack Town é um case que ilustra esta filosofia do desplanejamento. E os aprendizados abaixo são a nossa opinião sobre o que vem fazendo o Hack Town se destacar entre diversos outros eventos que ocorrem Brasil afora.

Vamos lá.


1– Falta de dinheiro não é motivo para ficar parado.

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A primeira edição do Hack Town foi feita na raça, praticamente sem recursos financeiros, mas com vontade de sobra. E foi suficiente para surpreender. Diante das dificuldades de levantar recursos para uma iniciativa tão alternativa, se nosso foco tivesse sido o de esperar pela verba necessária, nada teria acontecido.

Com um mínimo produto viável (MVP) no papel, buscamos patrocínios. Não conseguimos. Mudamos o rumo e buscamos apoio não financeiro da comunidade e do governo municipal. Deu muito certo. Lançamos um pedido coletivo de ajuda, e os voluntários apareceram. Convidamos amigos que pudessem palestrar e muita gente brilhante curtiu a ideia. Rodamos um piloto em 20 de fevereiro de 2016. O público foi de 400 pessoas que vieram de diversas partes do país para curtir cerca de 100 atividades. Deu certo, teve aderência, o pessoal se surpreendeu. Passamos a ter algo tangível em mãos. Tudo ficou mais fácil.

No início de setembro, fizemos a segunda edição, com 1.500 pessoas de mais de 90 cidades, quase 200 atividades em 3 dias, tudo com o apoio de empresas locais, de instituições, e do governo. Muita gente incrível se propôs a palestrar, bandas sensacionais nos procuraram. Foi surpreendente. E para a terceira edição, a tendência é só melhorar. 


2- O Hack Town nasceu de um propósito verdadeiro.

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Não acordei um belo dia e pensei: ok, vamos fazer o Hack Town. Há cerca de 5 anos, deixei a propaganda e realizei meu sonho de voltar à Santa Rita do Sapucaí para aplicar um pouco do que acredito em termos de estratégia e entendimento de pessoas ao contexto da tecnologia. Desde então, venho me surpreendendo a cada dia com o quão incrível é este lugar, pequeno em tamanho, mas gigante em vontade de inovar. O que precisamos é conectar tudo o que rola por aqui ao que acontece de mais incrível no mundo – e vice-versa.

Foi neste contexto que conheci os outros criadores do Hack Town: João Rubens Costa, que trabalha com inovação no Inatel, o Marcos David, empreendedor da startup Dágora, incubada no Nemp e acelerada no Seed, e o Ralph Peticov, ex-sócio da Mandalah. Se você perguntar a cada um deles, a cada voluntário, a cada dono de estabelecimento que sedia atividades, ou a qualquer outro envolvido, verá que existe por trás disso tudo uma causa compartilhada, acima de qualquer outro interesse.

O Hack Town não nasceu de uma ideia de negócio. Queremos que ele se torne um, e temos certeza de que isso vai acontecer – ou já está acontecendo. Mas acima de tudo, a ideia é transformar. Tivemos, inclusive, algumas passagens tentadoras que colocariam isso em risco, como a de um gigante multinacional que, após o piloto do início do ano, ofereceu uma quantia gigantesca para que realizássemos o evento em São Paulo, e não mais em Santa Rita. Obviamente, não topamos. As fontes de receita estão começando a aparecer, mas sem violar as premissas básicas do evento. E assim continuará sendo. 


3– A colaboração é um trabalho remunerado com outras moedas.

Sem um propósito compartilhado seria impossível. Mas com apenas um propósito, não seria suficiente. Existem diversos pontos complementares que podem ser combustíveis para um projeto colaborativo. Tem gente que quer se conectar com determinados profissionais. Tem quem queira aproveitar o fluxo de pessoas na cidade. Tem quem queira conhecer gente inovadora. Tem quem queira trocar ideias e ouvir feedbacks. Tem quem queira ampliar seu networking. Tem quem veja oportunidades futuras com o desenvolvimento da cidade. Assim como tem gente simplesmente a fim de participar de algo incrível.

Enfim, ninguém trabalha de graça, assim como a grande maioria também não pensa só em dinheiro. Existem outras moedas, que devem ser identificadas e trabalhadas. No fim das contas, o importante é todo mundo se sentir valorizado, estar satisfeito com o resultado coletivo e individual e, acima de tudo, ter certeza de que valeu a pena. Sem uma relação ganha-ganha com todos os envolvidos (inclusive com a população da cidade), seria impossível levar o Hack Town adiante.


4 – Um frame para a liberdade criativa pode resultar em obras de arte.

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Outra característica do Hack Town foi a existência de pequenos núcleos de trabalho, conectados uns aos outros, sem uma hierarquia definida, e com muita autonomia. Mas como foi possível garantir a execução precisa da estratégia e um padrão de qualidade?

O raciocínio foi o seguinte: se queremos que o acaso tenha um papel essencial na construção do projeto, não podemos fechar as pontas nem definir tudo de antemão. Focamos, portanto, em criar um frame para que, dentro dele, a liberdade criativa pudesse ser implacável. Este frame foi o que o Hack Town NÃO quer ser, ao invés dos tradicionais “onde queremos chegar” ou “o que queremos ser”. Fez toda diferença.

Aqui uma historinha que mostra na prática o poder deste tipo de alinhamento.

Durante o evento, um palestrante teve um problema e não apareceu na hora. Os voluntários responsáveis pelo local da palestra espontaneamente pegaram o Whatzapp de todos os presentes na sala, e indicaram outras atividades relacionadas para cada um. Na chegada tardia do palestrante, estabeleceram um horário novo durante o almoço e avisaram cada um dos que queriam assisti-lo. Ou seja, de forma orgânica, espontânea e autônoma, eles resolveram o problema e encantaram os participantes.

Desta forma, vamos construindo nosso jeito único de ser. Seria mais simples buscar consagradas fórmulas de como se fazer um evento. Certamente teríamos menos surpresas, mas certamente seríamos menos surpreendentes.

Aliás, este jeito unplanned de atuar tem muito a ver com a postagem abaixo, feita recentemente pela Ana Cortat, que tomei a liberdade de replicar aqui.

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5 –O Hack Town não seria possível em outro lugar.

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Para finalizar, Santa Rita é uma cidade diferente de tudo que você já viu. Vale conhecer. O antropólogo cognitivo Dr. Bob Deutsch retratou isso muito bem neste texto (http://www.emporiodenoticias.com/?p=2014), de quando esteve na cidade em 2013.

Começa pela história peculiar. Nos anos 1950, uma filha de fazendeiros riquíssimos, neta de presidente da república, assistiu a uma palestra de Albert Einstein na Ásia, em que ele disse que a Eletrônica seria o futuro da humanidade. Ela voltou e dedicou toda sua fortuna à construção da primeira escola técnica de eletrônica da América Latina. Depois veio o Inatel, hoje praticamente um MIT brasileiro, ai nasceu o Vale da Eletrônica, polo tecnológico destaque no país, com mais de 150 empresas. Desde então, o foco tem sido em atrair empresas de tecnologia em início de operação, para que seus donos venham morar na cidade, e principalmente na geração de novas empresas na própria cidade. É por isso que existem quatro incubadoras por aqui, incluindo uma pública, que colecionam cases incríveis. Assim, a cidade mantem um baixo crescimento populacional, e um altíssimo nível de desenvolvimento.

Nos anos seguintes, começaram os eventos de grande porte como o Bloco do Urso, um dos principais carnavais do país, além de congressos globais de tecnologia e festivais de música. O Teatro Inatel ajudou no fortalecimento da parte artística. E o Movimento Cidade Criativa, Cidade Feliz empoderou as mentes criativas da cidade a tirarem suas ideias do papel com mais intensidade, levando o foco para o autoral, em todas as áreas.

Isso nos leva a concluir que o Hack Town dificilmente funcionaria fora de Santa Rita do Sapucaí. O evento não foi algo artificial colocado em uma cidade pequena. Por mais que tenha sido inspirado no lado B do SxSW, ou seja, naquela parte não-oficial que rola na Rainey a na 6th Street, Santa Rita já respira inovação, criatividade, tecnologia e artes. A população tem cabeça aberta para coisas novas, não tem vergonha de ser uma cidade pequena, valoriza sua identidade, seu jeito pitoresco de ser, suas características interioranas, assim como tem orgulho do seu lado inovador, na tecnologia e na economia criativa. Está longe de ser uma cidade perfeita, tem seus problemas como qualquer outro lugar, mas a inovação está por todo lado, como no exemplo abaixo:

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(matéria em http://edition.cnn.com/2012/07/14/world/americas/brazil-alternative-sentence-reduction/)

Bem… Rumo à terceira temporada, temos inúmeros desafios pela frente. O projeto do Hack Town está apenas começando. Vamos trabalhar muito para manter a essência e a leveza, diante dos desafios do crescimento. Temos muito a evoluir, muito a construir, muito a transformar. Portanto, da mesma forma que estes aprendizados nos serão muito úteis, espero que tenham alguma utilidade para vocês.

Obrigado pela atenção. Nos vemos em setembro de 2017! 🙂


(*) Carlos Henrique Vilela é co-fundador do Hack Town, do Unplanned
e head of marketing and innovation na Leucotron.

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